Não espere que a vida seja justa

Muito da falta de autoconfiança está ligada a uma sensação que muitas pessoas têm de serem vítimas de um sistema injusto. Pessoas desse tipo acreditam que, por estarem em “posição inferior”, os outros serão compassivos com elas, sentirão pena delas. Logicamente que esse tipo de comportamento é involuntário. Tanto que se a própria pessoa não arrancar esse mal de dentro de si, pode passar toda uma vida e não se dar conta de que ele existe.
Você deve estar se perguntando: “E o que isso tem a ver com concursos públicos?” Explico, mas para isso vou usar um trecho do livro ‘Quincas Borba’, de Machado de Assis.
“Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. (...) Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. (...) Ao vencedor, as batatas.”
Afora o teor filosófico, essa realidade é análoga à de concursos públicos. Os cargos estão aí, e não podem ser ocupados por mais de uma pessoa ao mesmo tempo — ainda que normalmente sejam oferecidas mais de uma vaga. Para ocupar estes cargos, é necessário vencer a “guerra” de quem “sabe mais”. E àqueles que forem aprovados será dado o prêmio maior: as batatas, ou seja, o cargo.
Suponha então dois candidatos, Joãozinho e Pedrinho, com o mesmo nível de facilidade de aprendizado, ou seja, iguais níveis de
Q.I.
Joãozinho nasceu em berço rico, sempre estudou nas melhores escolas e nunca precisou trabalhar. Ao completar 18 anos, seu pai lhe dá um carro e dinheiro para investir nos estudos para concursos públicos. Joãozinho então estuda com os melhores professores, melhores livros e tem o dia inteiro para estudar.
Pedrinho, todavia, provém de uma família sem muitos recursos. Estudou numa escola pública, que quase sempre interrrompia suas aulas por falta de professor ou por greves. Desde cedo precisava trabalhar para ajudar nas despesas de casa. Quando fez 18 anos, seu pai, homem trabalhador e desejoso de um melhor futuro para seu filho, o aconselha a estudar para concursos públicos. Pedrinho então decide estudar, mas dispõe de pouco tempo e os seus estudos são de no máximo 2 horas por dia.
Daí, eu te pergunto: desconsiderando aspectos como disciplina, concentração, qualidade de estudo etc, quem tem maior probabilidade de passar em concurso? Sem dúvida alguma, Joãozinho. Isso é uma prova de que a vida não é justa. A banca examinadora não procura saber o motivo de os candidatos estudarem ou não. Ela só quer saber se o candidato acertou ou não as questões da prova. Só isso e nada mais.
Não espere que a vida seja justa, pois ela não é. Em concursos públicos impera o lema do “Ao vencedor, as batatas”. Então pare de chorar por suas tristezas, de reclamar das suas circunstâncias e mergulhe nos livros, O sucesso sem esforço é prazer ilusório. Pegue o que tem e consiga o que pode. Use todas essas circunstâncias adversas como uma forma de motivação e força para estudar com total empenho. Isso porque, embora no exemplo acima Joãozinho tenha maior probabilidade de passar em concurso, normalmente são os Pedrinhos da vida, com toda a sua força de vontade, que alcançam a- provação. Nesse sentido, sim, a vida é justa: no sentido de recompensar aqueles que lutam por seus ideais, que operam acima das circunstâncias.
Concurseiro, decida que o topo do pódio é o seu lugar, ainda que as adversidades pareçam ser maiores. Encare as dificuldades com um largo sorriso, pois são elas que vão maximizar o prazer da vitória quando você chegar lá. Aceite o que a vida te dá, use o que tem e seja o melhor que puder.

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